VAI UMA CARNE DE PACA ?
UM PÉSSIMO EXEMPLO
Por: Valdimar Lopes da Silva
Historiador com Pós-Graduação em História
Historiador com Pós-Graduação em História
Vai uma carne de paca? O vídeo da primeira-dama Janja da Silva preparando uma paca — animal da nossa fauna silvestre — para o almoço de Páscoa abre um debate urgente sobre responsabilidade pública. Como historiador, observo nessa cena duas situações desastrosas que ferem a ética e a realidade do povo brasileiro: o incentivo ao crime ambiental e a ostentação em tempos de crise.
Primeiro, há uma clara irresponsabilidade pedagógica. Como explicar para um colono ou para o pequeno produtor rural que ele não deve abater animais da mata se a primeira-dama do país o faz diante das câmeras? Pessoas simples, que vivem o cotidiano do campo, não dominam as nuances burocráticas de "criatórios legalizados" ou notas fiscais do IBAMA. O que elas enxergam é a validação cultural do consumo. Ao ver a paca na panela do poder, o cidadão comum, com a despensa vazia, sente-se autorizado a ir à selva abater um porco-do-mato, um jacamim ou um tatu para alimentar seus filhos. O exemplo que vem de cima anula anos de campanhas de conscientização ambiental.
Em segundo lugar, surge a face cruel da ostentação. Enquanto milhões de brasileiros lutam para pagar a conta no supermercado e dependem do Bolsa Família para garantir o básico, a primeira-dama exibe uma iguaria que custa acima de R$ 200,00 o quilo. É um abismo social escancarado. É um escárnio com quem substituiu a carne bovina pelo ovo ou pelo osso devido à inflação dos alimentos.
Fica difícil conscientizar o cidadão sobre a preservação da fauna e o respeito às leis quando quem deveria dar o exemplo é o primeiro a flertar com o que parece ser um privilégio de elite. O vídeo não é apenas uma "receita de feriado"; é um símbolo de desconexão com a realidade do Brasil profundo. Para quem governa, o melhor tempero deveria ser a empatia. Sem ela, o que sobra é apenas um prato caro servido com o gosto amargo da hipocrisia política.
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