Migração e Memória no Chão do Araguaia

Por: Valdimar Lopes da Silva (ValLopes)

Pós-graduado em História
Como historiador e observador atento das transformações sociais, venho amadurecendo um pensamento que define o estado de nossa consciência coletiva: "Em terras onde as águas da falta de conhecimento são profundas, a ignorância nada de braçadas" (VALLOPES, 2026). Esta máxima reflete o cenário de Xinguara, no Pará, cidade que outrora foi um pujante polo madeireiro, mas que hoje assiste ao desaparecimento acelerado de seu patrimônio arquitetônico.
As casas de madeira, construídas à moda antiga, estão se acabando. Este fenômeno parece ocorrer em todo o Estado, e diante dessa destruição silenciosa, surge o questionamento: será que nossa história será perdida no tempo? Nada ficará de recorte? Não restará um item sequer para lembrarmos daquilo que nós e nossos antepassados vivemos? Sem a conservação desses vestígios, corremos o risco de dar um adeus definitivo à nossa cultura, perdendo as referências físicas da nossa "época de ouro".
Minha autoridade para falar sobre este território provém da minha própria genealogia. Sou paraense, filho de Izidoro Lopes da Silva, um desbravador que chegou ao Pará em 1970, vindo de Goiás com minha mãe e meus irmãos mais velhos: Evangelista, Leonardo, Adonias e Carmelita — sendo ela a única dos meus irmãos a nascer em solo goiano. Já em solo paraense, nascemos Valmir, eu (Valdimar), Anelita e Maria, a caçula.
Meu pai foi um mestre da selva amazônica. Além de retirar as madeiras de lei para os primeiros postes da rede elétrica de Brejo Grande do Araguaia — as hoje chamadas termoelétricas —, ele dominava os ciclos da natureza. Sabia o período exato em que o cupuaçu nativo amadurecia e caía, chegando sempre antes da concorrência para colher o que a mata oferecia: cupuaçu, bacuri, castanha-do-pará e bacupari. Em tempos de desbravamento e alimentação de difícil acesso, a caça e a pesca eram as ferramentas de sobrevivência que garantiam o sustento da família.
Nessa jornada, os verdadeiros guerreiros foram meus irmãos Evangelista, Leonardo e Adonias. Ainda na pré-adolescência, trabalhavam mais que adultos no esforço braçal hercúleo da coleta de madeira e na agricultura, suprindo a escassez de mão de obra daquela época.
Enquanto isso ocorria, a História passava à nossa porta: a Guerrilha do Araguaia. Nossa família vivia a neutralidade dos pioneiros. O Exército frequentava nossa casa de taipa, onde minha mãe ficava sozinha com os bebês. Ficou na memória o diálogo com o Sargento Rocha, que perguntava se ela não tinha medo da selva, ao que ela respondia com fé: "Tenho nada, senhor. Deus me guarda".
Tudo o que narro é a absoluta verdade, confirmada pelos meus irmãos e contemporâneos. Como historiador, entendo que a preservação do patrimônio e da história oral é o único antídoto contra o esquecimento. Precisamos de recortes preservados, ou a ignorância continuará nadando de braçadas, deixando as futuras gerações órfãs do suor, do sabor e da madeira que construíram o nosso Pará

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